Não havia vontade de chegar, o sol era radiante, um pouco coberto por tantos edifícios grandiosos, mas estes compensavam-no com sombras refrescantes. O tempo era de aproveitar o momento, relaxar, meditar, contemplar algo, fosse o que fosse. A relva funcionava como um colchão não muito rijo, mas suficientemente mole para ser confortável. Os olhos semi cerrados, apenas se abriram para contemplar os tenebrosos agricultores carregando inchadas e pás, já um pouco tortas de tanto uso. Deu-se o massacre.
O andar apressado por entre as pedras da calçada, na subida ou na descida, passando por quarteirões de edifícios, sujos mas imponentes, o barulho metálico da chave a entrar na fechadura ranger da porta a fechar, um cobertor suavemente puxado para cima. O conforto invade a paz de espírito, acabou. Assim pensava, mas logo de seguida entraram os lenhadores rompendo o silêncio e a escuridão, empunhavam majestosos machados e serras eléctricas. Aconteceu novamente.
Estas duas situações causaram o temor na cidade, quem era o terrível assassino? Corriam boatos de monstros, de selvajaria desumana, de medo do desconhecido. Assim lia o Borges, enquanto fumava o seu cigarro, proveniente de uma qualquer plantação, satisfazendo a sua sede de nicotina com algo que nasceu e foi criado na terra, mas é morto queimado nas mãos de algum fumador ( até parece que o tabaco é algo vivo!). Ele tinha um trabalho entre mãos, só não sabia onde começar, era óbvio para ele que o jornal irrealista não seria um bom começo.
Não existiam testemunhas, não havia provas, nada... Pelo que lhe dizia respeito, não fosse a autopsia, teria sido somente uma calma morte durante o sono. Amarrotou e mandou o jornal para o lixo, como se somente fosse uma pequena resma de folhas descartáveis, (e não o é?)
Decidiu passear pela avenida, para clarificar ideias, procurar uma inspiração que o ajudasse neste caso digno de serlock holmes. Pelo caminho começou a suar, dados os 30º graus que se encontravam, de nada iria ajudar continuar a caminhada, optou por parar junto a um café de aparência acolhedora. Ao entrar deu com o empregado a esmagar uma mosca ou algo parecido com a palma da sua mão, com uma perícia de alguém experiente, de alguém que já vitimou inúmeras dezenas de pequenos insectos voadores, (nada que pudesse ser considerado um homicídio), encostou-se ao balcão e pediu um sumo de uva, brotado do suco das melhores uvas, que cresceram saudáveis e bem tratadas, que foram esmagadas no auge da sua forma física, nada que um cliente não deva exigir). Ao olhar em seu redor, chamou-lhe à atenção uns belos chifres de marfim verdadeiros, que estavam emoldurados como que se dum quadro se tratasse, por baixo deles estava estava escrito em tons de dourado a designação do local e do animal a que foram arrancados, sem pedir licença, estes magníficos canudos ( Borges suspirava de tanta banalidade na decoração, nada de novo aqui).Subitamente sente algo espetado no seu braço, assustado retira-o de imediato e dá de caras com um dardo tranquilizador, igual ao utilizado no local especificado na moldura. Antes de ter tempo de reacção ele cai redondo no chão como se fosse um elefante abatido.
Ele acordou mais tarde, deu por si, colocado dentro de algo que aparentava ser um sistema de tortura, algo como um corpo entalada em duas chapas frias de metal.
- Diz-nos o que sabes sobre o assassino que andas a investigar, e a quem já passaste a informação que descobris-te. Se te recusares a falar sofrerás aquilo que as vitimas que investigas sofreram.
Borges não sabia como provar o seu desconhecimento do caso, a sua reputação de investigador impedia-o de parecer verídico. Desse modo sentiu as chapas a encostarem-se ao seu corpo, comprimindo-o, espremendo o seu corpo, se fosse uma uva estaria neste momento a libertar algo como aquele sumo saboroso que ele tinha bebido há pouco. Os gritos agoniantes começaram a tornar-se insuportáveis aos ouvidos do seu agressor, ele teve que parar com a tortura.
E assim caiu Borges mais uma vez redondo no chão, desta vez parecendo um daquele insectos voadores (chatos) esmagado por um mata-moscas, melhor, pelas mãos do dono do estabelecimento onde ele tinha estado há pouco. Após uns minutos de descanso, e com a cabeça mais lúcida, era altura de traçar um plano de fuga. E que plano seria melhor do que aproveitar o facto de a porta de saída daquela sala de tortura estar aberta e aparentemente sem vigia. Dando tudo por tudo, a uma velocidade vertiginosa, ele partiu a caminho da liberdade, mas somente depois de ultrapassada a sua meta é que ele experenciou, uma a falha no seu plano, alguém vigava a aquela saída do lado de fora.
De volta à base pensou ele, ao cair novamente no chão, após sofrer com uma machadada na perna esquerda, seguida de outra na perna direita. Após a queda sentiu uma serra eléctrica a cortar-lhe as pernas, com movimentos semelhantes ao cortar de troncos de árvores; árvores estas que nomeadamente deram origem às folhas de jornal que ele tinha lido esta manhã.
-Agora não foges mais. Disse o violento agressor.
O Borges encontrava-se num estado lastimável, o agressor tinha exagerado nas suas torturas, agora nunca conseguiria arrancar nenhuma palavra à sua vitima, pois Borges já não tinha motivos para querer continuar vivo. Só restava agora, ver-se livre do corpo.....; e foi o que fez, pegando, com esforço num homem que já não batalhava mais por sobrevier, empurrou-ou até ao crematório, onde morreu queimado, lembrando vagamente algo semelhante ao seu cigarro, no começo do dia.
Conclusão:Borges teve a oportunidade para apanhar o criminoso, mas não soube estar de olhos suficientemente abertos.