sábado, 23 de junho de 2007

Um simples desabafo

O espaço em todo o seu esplendor, o nada e o tudo simultaneamente, a escuridão imensa triunfante pelo infinito, o silêncio mudo de todas as vozes unidas num só murmúrio silencioso….eu sou só um bocado de matéria, que se vai degradando e decompondo conforme navego pelas constelações, arrastado por fortíssimas correntes gravíticas, tal qual uma nau no alto mar, nasci cometa, sou cometa e como cometa morrerei.


Com os meus inúmeros passeios, conheci os mais diversos planetas, satélites, estrelas, buracos negros, curiosamente todos eles a uma determinada altura me perguntaram se eu não me cansava desta vida cíclica e inglória, de ver sempre o mesmo e passar sempre pelos mesmos sítios.


A minha resposta era sempre a mesma, tudo está em constante mudança, nunca passamos pelo mesmo local duas vezes, se viajasses comigo, se pudesses comparar aquilo que viste antes e o que vês depois, compreenderias melhor estas palavras. Mas não podes porque não és como eu, estás limitado a essas pequenas órbitas e rotações. Infelizmente, poucos foram aqueles que depois de eu lhes responder continuaram a considerar-me amigo(talvez tenha sido muito agressivo com eles, ou têm simplesmente ciúmes, não interessa);assim tornei-me um cometa solitário, que gosta do que faz , que transporta com ele conhecimentos milenares do universo, mas não tem ninguém com quem os partilhar.


Sempre que passava pelo sistema solar, havia um planeta que me intrigava bastante, era o planeta Terra, pois sempre que o observava via-o mais parecido com Vénus, estava eu longe de saber que o destino me levaria a conhecê-lo bem melhor do que alguma vez conheci um planeta.
Como é de prever todos os cometas mais cedo ou mais tarde param, existem dois tipo de paragem, uma delas é a erosão, a desintegração total; a outra é embater num planeta ou algo parecido, eu parei da segunda maneira e como já devem ter adivinhado, bati num planeta chamado Terra. Ao passar pela atmosfera perdi muito do que era meu, quando toquei em algo firme(coisa que nunca tinha experimentado), não era maior do que uma bola de futebol. A minha queda, humildade à parte, foi grandiosa, ecoou por todo o planeta, fez tremer os chãos e levantou verdadeiras ondas gigantes de poeira e afins. 10 minutos após a minha chegada já estava cercado por centenas de curiosos, senti uma ponta de orgulho devo confessar. Antes de me poder aperceber de todos os pormenores que se passavam à minha volta, fui levantado da minha cratera por um grua e de seguida, dado o meu tamanho e peso colocado dentro de um saco, para depois ser levado na parte de trás de uma carrinha e partir para um laboratório.


Assim fiz a verdadeira descoberta da minha vida, a única que eu não poderia fazer sozinho. Senti como é ter alguém com quem gostemos de conversar, com quem nos preocupemos e queiramos o seu bem estar, senti o valor de um amigo. Quem me ensinou isto foi um cientista que trabalhava no laboratório, um homem que já tinha passado pelo seu apogeu, já tinha sido calejado pela vida, e isso tornava-o um velho barbudo, paciente e calmo, um óptimo contador de histórias. O meu amigo mostrou-me a forma com funcionava a Terra, a sua organização e estrutura, vislumbrei a forma comunitária como sobreviviam , fui apresentado aos grandes ideais que tinham erigido esta civilização. Tudo isto era fascinante, mas o que mais me surpreendeu foi como nenhuma informação se perdia, tudo o que eles sabiam ou pensavam saber, estava provado, refutado e armazenado para quem tivesse a sede do conhecimento. , Eles tinham o bicho do conhecimento dentro deles, iam mais longe do que a física os levava, verdadeiros cientistas. Eram perfeitos para alguém auto didacta como eu, alguém que não gosta de parar na aprendizagem. Absorvi tudo aquilo que eles tinham para me mostrar, fiz-lhes conhecer segredos do universo e estranhos fenómenos que se passavam a milhares de anos-luz de distância. Fui feliz…


Com o passar do tempo, a situação clínica do meu amigo foi-se degradando, até que ficou imobilizado a uma cama, dependente de uma máquina para conseguir olhar para as quatro paredes brancas do quarto ou sentir o cheiro intenso a naftalina do hospital. Apesar dele não poder falar ou mesmo fazer algum tipo de expressão facial, eu sabia que ele não estava feliz, que por mais que me custasse admitir, ele tinha chegado ao fim. Por isso agi em consonante com a minha consciência e princípios, desliguei o botão e fi-lo com um último acto de amizade, o último adeus.


Agora, olho por entre estas grades de metal, numa cela solitária e impessoal, esperando angustiosamente que a morte me tire desta prisão em que se tornou a minha vida, já não tenho sonhos nem esperanças, estou como tu estavas antes do adeus, amigo. Mas eu não consigo perceber….. Como num local de curas milagrosas, onde se dá o verdadeiro valor e respeito à vida, podem surgir tantos preconceitos com a morte. O verdadeiro poder que nós temos sobre a vida é o facto de esta ser moldável, de a podermos alterar conforme queira-mos, é este jogo da acção consequência que faz com que valha a pena estar vivo. Quando retiram este poder a um ser vivo, retiraram-lhe a vida…….e como é que seres tão nobres, podem fazer algo tão cruel de consciência tão limpa, com podem prender alguém no nada……..retiram-lhe a vida mas não lhe dão a morte………… Enfim, só um desabafo de alguém que não percebe o porquê…..