segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Fragilidade


Ainda semi -desperto, mas já com o coração aos pulos, ele projecta-se da sua confortável cama para o chão, mesmo a tempo de evitar uma chuva de besouros, que entrou pela janela dupla do seu quarto. De pouco lhe serviu o seu olhar e reflexos atentos, pois apesar de se ter esquivado à primeira investida, não tinha por onde fugir ou como se defender. Uma verdadeira praga corroía-lhe. Foi a primeira vitima.

Quem se abstraísse desta situação e optasse por dar um olhada pela cidade, chocar-se-ia com o pânico e o caos., observaria com terror as investidas de milhões de insectos, por todo o lado, contra tudo o que mexesse . Não era possível existir heróis nesta guerra, não era possível reagir. Eles saiam do chão, do ar, da esquerda e da direita. Viravam carros e casas freneticamente, eram omnipresentes e implacáveis.
Onde está o repelente?!
Gritava um pai em desespero, ao mesmo tempo que lhe entravam quantidades infindáveis de moscas pela boca e tantas outras saiam pelo nariz, olhos, continuando por todos os demais orifícios.

Era uma carnificina, uma espécie que estava habituada a extinguir e a dominar, era assim apagada do Planeta. Do dia para a noite, instalava-se uma nova era; ruía a mais brilhante das civilizações até aqui conhecidas e entrava uma Bárbara nova ordem Mundial, sem leis, limites e misericórdia.
O despertador tocava, era altura de acordar para o trabalho. Escuta-se um suspiro de alívio e um pensamento corre na mente.

Este sonho foi real de mais…….

sábado, 6 de outubro de 2007

Coincidências

Capítulo 1

Observando as andorinhas a planar pelo horizonte azul e sentindo a luz a embater no seu corpo confortavelmente, sentia-se numa máxima paisagística e de conforto.

Então porque não sorria? Toda a sua vida tinha sido feita em prol de desejos futuros, no acreditar que o dia de amanhã seria ainda melhor que o de hoje. Apesar de se aperceber que alguns do seus desejos passados se realizaram, a sua vida não se tinha tornado melhor por isso. Existia sempre algo mais que era preciso, que estragava aquilo que tinha, tirando-lhe valor e dando-lhe simplicidade. Cada vez mais Mário aceitava e compreendia as razões que levavam a suicídios e depressões, ao contrário de outros tempos, já não dizia dessa água não beberei.
Que estou eu a dizer! (Pensava ele para si mesmo) eu tenho mais força mental que isto!!Eu não estou mal, não existem motivos para me queixar e de certo que o futuro me reserva surpresas…. Com esta frase soltou um leve sorriso e cortou com o seu monólogo, como se estivesses a desligar um interruptor. Poucos segundos depois, caiu no chão desmaiado, sem conseguir sequer observar a face do seu agressor.

Capítulo 2

Usufruindo de um agradável final de tarde, junto à sua piscina, João recostava-se por entre a sua espreguiçadeira, quando disse:

José! Hoje vou ter umas visitas, 4 pessoas minhas amigas. Faz algo decente para o jantar, não me envergonhes!

Porque é que tratas os teus empregados com se fossem escravos?


Porque posso….. Respondeu manifestando uma expressão de puro snob, de sangue azul.

Mas já não estás no sec. XV, as coisas já não funcionam assim, sabias? Há direitos, todos somos iguais.


Tu divertes-me António, sempre defensor dos direitos das pessoas, mesmo que estas nãos te digam nada.

António era um amigo de longa data de João, eles passavam tardes a discutir temas da actualidade e filosofias da vida. O que mais os estimulava era o facto de serem tão diferentes.

Ficas para jantar? Gostava que conhecesses estes meus amigos.

Estava a ver que não me ias convidar para tal ocasião.

Nesse caso vou avisar o José para meter mais um lugar na mesa…

João exibia um corpo musculado, atlético, possuía uma cor morena de latino que combinava com o seus cabelo e olhos pretos. Uma capa de revista, era como o seu agente de imagem o tratava. O pai de João possuía uma pequena que fortuna, o que lhe tinha facilitado em muito a sua vida. Um bom exemplo disso era a sua casa de campo, uma mansão de dois pisos, que faria as delicias de qualquer novo rico, rodeada por um jardim com piscina e campo de golfe de 2 hectares. Ele gostava de aproveitar a vida, fazia constantemente viagens pelo Mundo fora, mas não a sítios de turismo comuns, procurava locais perigosos, que lhe pudessem incutir alguma adrenalina.
Capítulo 3

António bocejou pela 10ª vez consecutiva.

Tens a certeza que os teus amigos sabem o caminho? Provavelmente perderam-se.
Após estas palavras o telemóvel de João toca:

Sim….. Onde está?…. Sei onde é…

Pousando o copo de uísque que estava a beber disse:

Levanta-te António, Vamos ter com eles ao porto.

Assim entraram os dois no carro desportivo verde do João, que era o motivo de muitas discussões entre estes dois amigos, pois António era também um ecologista.

Tenta ir devagar João! Já que não te preocupas com o ambiente, preocupa-te ao menos com a minha vida!

João riu-se e controlou-se para não meter a quarta na via rápida de 5km, que os ligava directamente ao porto. Chegando passaram por vários armazéns, até o João parar no 53.

Como é que os teus amigos vieram parar aí?

Não sei, mas tenciono perguntar-lhes de seguida. Vamos entrar?

Por fora o armazém aparentava não ser muito utilizado, o que ainda tornava mais estranho a presença dos seus amigos lá, mas como estava um carro à porta e a luz acesa, não havia motivos para desconfiar (supôs João).

A entrada do armazém era uma porta de ferro enorme, para a abrir foi necessário alguma força, pois esta já estava bastante enferrujada, inclusive com teias de aranha espessas nas dobradiças. Eles entraram e depararam-se com uma enorme assoalhada, mobilada exclusivamente por estantes gigantescas. Observando o cenário, António suspeitou que algo estranho de mais se passava.

Não te enganas-te no sitio? Não consigo engendrar um motivo para os teus amigos virem parar a este sitio.

Vê-se logo que não os conheces! Eles adoram fazer surpresas e partidas, descontrai. Aposto que eles estão atrás daquela porta do fundo.

Dois passos depois, ouviu-se uma voz vinda das suas costas:

Não se mexam! Nem se atrevam a olhar para trás!!

António estava ficou paralisado de medo, totalmente imobilizado, ao contrário de João que se virou e disse:

Quase que me iam assustando!! Tu quem és? Presumo que venhas também para jantar..

Mas a expressão de João mudou de alegria para preocupação, ao aperceber-se que tinha à sua frente uma figura com um revólver apontado na sua direcção.
Não se ouviu o tiro, devido ao silenciador, mas António estatelou-se no chão, com um buraco na cabeça.

Quando eu digo algo tu fazes! Percebes, se não…… és o próximo.

João não queria acreditar naquilo que se estava a passar, o seu amigo de infância, assassinado a frio. Uma mistura de emoções turbulentas passava pela sua cabeça. Ele tentava respirar fundo, mas o seu coração batia a cem à hora.

Tu vais ficar comigo. Nem pense em armar-te me esperto! A não ser que queiras ficar como os teus amigos.

Disse isto ao mesmo tempo que apontava para uma estante no outro extremo da sala, onde se podia ver de relance quatro corpos estendidos por entre as prateleiras.
João estava numa situação que nunca tinha experimentado, 5 amigos seus tinham sido baleados e estava prestes a ser raptado. Ele tinha de reagir, devia reagir, mas o seu raciocínio estava estagnado com tudo isto , ele estava amedrontado até à ponta dos seus cabelos.
Anda à minha frente, rápido! Vamos no teu carro, gostei da cor.

O seu desconhecido assaltante falava sem qualquer tipo de expressão, possuía uma cara rija, dura e intimidadora. Que assentava bem no seu corpo de porte largo e teso. Ao chegarem à porta, João recebeu a ordem para abrir a porta. No momento em que se preparava para o fazer, subitamente, alguém agarra o seu opressor pelo pescoço, apertando-o com uma força animalesca. De tal forma que em poucos segundos a cara do opositor passa de tons rosas para roxos. João depara-se então com alguém ainda mais corpulento, e com uns olhos que estilhaçavam ódio. Dada a pressão gigantesca do aperto, o assassino perde a capacidade de se manter vivo e cita umas palavras finais:

Quem és tu?

O barulho do assassino a cair no chão foi a única coisa que se ouviu nos momentos seguintes…Um silêncio perlongado, somente cortado por respirações ofegantes pairava no ar…..João e Mário estavam fixados um no outro, não diziam nada, nem os olhos se moviam. João acabou finalmente por cortar o silêncio, apesar de com uma voz trémula, disse:

Obrigado. Salvaste-me. Mas de onde é que tu apareceste?

Mário, ao tentar responder, perdeu as forças e teve de encostar uma mão à parede para se equilibrar. João notou que a outra mão tocava num enorme corte aberto na barriga do seu salvador. Ele apercebeu-se que as perguntas ficariam para mais tarde. Levantou o braço de Mário, encostou-o ao seu ombro e dirigiu-se com a maior das velocidades para o carro.

João tinha decidido leva-lo para o hospital, durante a viagem, ele nem sabia o que pensar. A morte do seu companheiro António era ainda um choque para ele, e quem era a personagem que o tinha salvo? As emoções por que tinha passado e a pressa de chegar levaram-no a atingir grandes velocidade no seu desportivo, mas isso era a menor das suas preocupações.

Na curva seguinte estava um para -choques de um camião para dentro e um desportivo verde com as rodas para cima.
FIM?